Entrevista com Humberto Theodoro Junior, o Novo Código de Processo Civil

Carta Forense – Qual será a ideologia norteadora dos trabalhos da Comissão de elaboração do Novo CPC?

Humberto Theodoro Junior – Consoante divulgação já feita pelo Presidente da Comissão, Ministro Luiz Fux, a ideologia norteadora dos trabalhos da Comissão foi a de conferir maior celeridade à prestação da justiça. Por isso que, à luz desse ideário maior, foram criados institutos e abolidos outros que se revelaram ineficientes ao longo do tempo. Optou-se, por exemplo, pela inclusão de ônus financeiro visando desencorajar as aventuras judiciais que abarrotam as Cortes Judiciais do nosso País.

CF – Serão aproveitados muitos institutos do CPC atual?

HTJ – Ainda de acordo com a referida divulgação, a Comissão deliberou ficar atenta à premissa de que há sempre bons materiais a serem aproveitados da legislação anterior. Mas, também, firme na crença de que são necessários dispositivos inovadores e modernizantes empenhou-se na criação de um “novo código” buscando instrumentos capazes de reduzir o número de demandas e recursos que tramitam pelo Poder Judiciário.

CF – O novo código prestigiará a uniformização da jurisprudência?

HTJ – Não se cogitou, até agora, de reduzir o sistema vigente de uniformização da jurisprudência, mesmo porque, quando se focalizam os tribunais superiores, ele se acha basicamente assentado em premissas constitucionais. A preocupação tem sido de ampliá-lo e aprimorá-lo.

Assim, por exemplo, o Código atual contém dois procedimentos destinados especificamente à uniformização da jurisprudência interna dos diversos tribunais, o dos arts. 476 a 479 e o do art. 555 § 1º. Pensa-se em eliminar o mais burocrático e que enseja maior procrastinação do processo, conservando-se aquele que é mais singelo e mais compatível com a garantia de celeridade da prestação jurisdicional.

CF – A conciliação terá uma previsão mais fugaz e eficiente?

HTJ – Imaginou-se que seria conveniente realizar a tentativa de conciliação no início do processo, a exemplo do que ocorre na Justiça do Trabalho.

CF – Dentro da seara da última pergunta,, o novo diploma trará previsões referentes à arbitragem?

HTJ – Não. A regulamentação da arbitragem continuará confiada à lei especial.

CF – Como será a divisões do código? Como será a reorganização e a nomenclatura dos livros?

HTJ – A proposta é de que o Anteprojeto do Novo Código de Processo Civil seja dividido em 6(seis) Livros: 1) Parte Geral; 2) Processo de Conhecimento; 3) Processo de Execução e Cumprimento de Sentença; 4) Procedimentos Especiais; 5) Recursos; 6) Disposições Finais e Transitórias.

CF – Haverá alguma alteração no sistema de provas?

HTJ – A proposta é de que, em princípio, haja a permanência do sistema de provas do Código atual, com alterações pontuais.

CF – Umas das proposições temáticas é a exclusão da possibilidade jurídica do pedido como condição da ação. Pode nos explicar?

HTJ – A possibilidade jurídica do pedido é de difícil configuração prática e foi abandonada até mesmo pelo seu idealizador, Liebman, que passou a sintetizar as condições da ação apenas na legitimidade e no interesse. De fato, a impossibilidade jurídica redunda sempre em improcedência do pedido, não havendo razão para tratá-la como espécie de condição de procedibilidade.

CF – Porque há a proposta de se extinguir a oposição, nomeação à autoria e chamamento ao processo?

HTJ – Ainda não se chegou a um consenso quanto a conveniência de reduzir as intervenções de terceiros apenas a denunciação da lide. Minha opinião pessoal é contrária a tal medida.

CF – Quais ações serão extintas dentro dos procedimentos especiais?

HTJ – A comissão ainda discute que procedimentos especiais serão extintos.

CF – O que mudará em relação aos poderes do magistrado?

HTJ – Pensa-se em ampliar os poderes do juiz, especialmente para adequar as fases e atos processuais às especificações do conflito, de modo a conferir maior efetividade à tutela do bem jurídico, respeitando-se o contraditório e a ampla defesa.

CF – Sobre os incidentes processuais o que poderá mudar?

HTJ – Há proposta de extinção de alguns incidentes processuais, como v.g: as exceções de incompetência, impugnação ao valor da causa etc, relegando essas matérias como temas da contestação.

CF – A reconvenção também será extinta? O que substituirá o instituto para o requerido?

HTJ – Discute-se a possibilidade de também ser extinta a reconvenção nos seus moldes atuais. Permitir-se-ia ao réu, em seu lugar, formular pedido contraposto na própria contestação, desde que conexo com o fundamento do pedido do autor ou da defesa.

CF – Haverá alguma mudança em relação à contagem de prazos?

HTJ – A proposta é de que os prazos processuais passem a correr somente em dias úteis e que os prazos para os magistrados proferirem decisões sejam ampliados.

Também deverá haver a unificação de todos os prazos recursais com contagem em dias úteis.

CF – Como será disciplinado o importante tema referente aos honorários advocatícios? O que será a sucumbência recursal?

HTJ – Haverá melhor disciplina para a incidência de honorários advocatícios na fase inicial de cumprimento de sentenças. Propõe-se que a fixação dos honorários nas ações de conhecimento seja de 10% a 20% do valor da condenação ou do proveito, benefício ou vantagem econômica obtida. Para as causas que envolvam a Fazenda Pública, sugere-se a fixação dos honorários entre 5% e 10% sobre o valor da condenação ou do da vantagem econômica obtida.

A verba de honorários advocatícios passará a ostentar, por força do novo código, textualmente, natureza alimentar.

Será direito próprio do advogado os honorários na proporção do êxito obtido na causa, vedando-se a compensação.

A chamada sucumbência recursal consistirá na possibilidade de ampliar os honorários, a cada recurso não provido.

CF – A parte referente aos recursos promete ser a pedra de toque para solucionar grande parte dos problemas referentes à morosidade. Pode nos falar um pouco sobre o que vem para revolucionar o processo civil?

HTJ – A proposta da Comissão é de que haja uma redução do número de recursos hodiernamente existentes, como a eliminação dos embargos infringentes e o agravo, como regra. No primeiro grau de jurisdição será adotada uma única impugnação da sentença final, oportunidade em que a parte poderá manifestar todas as suas irresignações quanto aos atos decisórios proferidos no curso do processo. Ficará limitado o cabimento do Agravo de Instrumento às decisões relativas às tutelas de urgência e aos incidentes do processo de execução.

CF – Haverá alguma previsão referente ao Processo Eletrônico?

HTJ – O Novo Código de Processo Civil estará adequado à lei referente ao processo eletrônico, compatibilizando a comunicação dos atos processuais com o novel sistema moderno. Serão estabelecidos, como regra, que os atos de alienação (arrematação) sejam realizados por leilão eletrônico, salvo se as condições da comarca não permitirem a observância do referido procedimento.

A implantação de qualquer modernização à luz da eletrônica, no entanto, não se dará apenas pelas previsões da lei. O problema se prende muito mais à administração dos Tribunais, já que atualmente existe suporte legislativo suficiente para que tal ocorra.

CF – Como advogado, magistrado aposentado e doutrinador como o senhor avalia que será o impacto da nova codificação no dia a dia forense?

HTJ – Imagino que a principal meta de um novo código de processo esteja acima de tudo numa parte geral bem redigida de modo a ressaltar os vínculos e deveres da jurisdição com os direitos fundamentais assegurados pela Constituição. O aprimoramento da prestação jurisdicional depende muito mais da conciencia de que o processo tem compromissos de efetividade com os princípios e direitos da Lei Maior do que do mero estabelecimento de procedimentos mais ou menos complexos. A condução do processo rumo ao encerramento dentro de um prazo razoável depende basicamente da superação das “etapas mortas” da marcha procedimental, contra as quais as inovações legislativas podem muito pouco. Nenhuma reforma de lei consiguirá exito expressivo se não for acompanhada de expedientes administrativos tendentes ao aprimoramento material e humano dos serviços judiciários.
Jornal Carta Forense, quinta-feira, 1 de abril de 2010

Humberto Theodoro Junior Advogado; Desembargador aposentando do TJ/MG; Professor Titular aposentado da Faculdade de Direito da UFMG. Membro da Academia Mineira de Letras Jurídicas, do Instituto dos Advogados de Minas Gerais, do Instituto de Direito Comparado Luso-Brasileiro, do Instituto Brasileiro de Direito Processual, do Instituto Ibero-Americano de Direito Processual e da International Association of Procedural Law. Membro da comissão de juristas para elaboração de Anteprojeto para o Novo Código de Processo Civil e autor de diversas obras pela Editora Forense.

Extraído do Site: http://www.cartaforense.com.br/Materia.aspx?id=5444&utm_source=ALLINMAIL&utm_medium=email&utm_term=http%3A%2F%2Fwww.cartaforense.com.br%2FMateria.aspx%3Fid%3D5444&utm_content=antonioclaudinojunior@gmail.com&utm_campaign=ABRIL%201%20-%20NOT%CDCIAS%20COM%20AGENDA

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1 Response to “Entrevista com Humberto Theodoro Junior, o Novo Código de Processo Civil”


  1. 1 Wagner Diógenes Machado 22/04/2010 às 10:23

    De fato, não se pode olvidar que o judiciário pátrio, hodiernamente,de um algo geral,encontra-se acometido pela morosidade no trâmite das demandas postas sob sua tutela(Estado-Juiz).Todavia,ao tratarmos de uma revolução em matéria processual,tal qual se vislumbra com a atual comissão de elaboração do novel Código de Processo Civil,composta por brilhantes profissionais,cuja competência não se questiona, e que muito já contribuíram para afirmação do nosso judiciário,mister faz-se a observância de importantes pontos inerentes à proteção de direitos e garantias dos litigantes,eis que referido projeto adentra um campo extremamente árido.

    É sabido que a Carta da República, especificamente em seu dispositivo 5º, cuida de indeléveis princípios voltados à proteção dos direitos e garantias fundamentais dos“cidadãos”,tidos como cláusulas pétreas,dentre os quais se encontram o da ampla defesa e o do devido processo legal.Sob esse enfoque,numa análise voltada à supressão de recursos previstos na atual sistemática processual,visada pela comissão de elaboração do novo CPC,especialmente no que diz respeito ao Recurso de Agravo em sua forma Instrumental,em que pese entendimento contrário,não vejo com bons olhos tal iniciativa.

    Com efeito, a Lei 11.187/05, almejando desafogar o judiciário e,assim,atender ao tão prolatado princípio da celeridade processual inserido no nosso ordenamento jurídico por meio da Emenda Constitucional de Nº45/04(inciso LXXVIII,artigo 5º da Carta Magna),reformulou a sistemática do Agravo,conferindo a sua forma instrumental tão somente àquele que encontra-se em iminente risco de sofrer lesão grave e de difícil reparação,a fim de salvaguardar o direito que vê-se ameaçado.

    Na dinâmica forense, há situações em que as partes vêem-se prejudicada por uma decisão interlocutória,cujo remédio processual adequado a combater os prejuízos trazidos por tal decisão é justamente o Agravo em sua forma Instrumental.Com a supressão do Recurso de Agravo,especificamente na sua forma instrumental,como pretende a comissão de elaboração do novel CPC,as partes se verão vulneráveis, não possuindo meios para sanar os efeitos de uma decisão interlocutória que venha possivelmente afligi-los.

    Por outro lado, não vejo o Recurso de Agravo como o algoz da morosidade do judiciário pátrio,ao ponto de sua supressão se mostrar imprescindível à boa sistemática processual.

    Outro ponto a se destacar,refere-se às condições da ação,especificamente à impossibilidade jurídica do pedido.Como se vê, a comissão de elaboração do novel CPC visa suprimir a possibilidade jurídica do pedido como condição da ação.Atualmente,na análise concreta do caso,verificado que a demanda carece de uma das condições da ação (legitimidade das partes, interesse processual, e impossibilidade jurídica do pedido),o Magistrado deve extingui-la precocemente,vez que os requisitos mínimos de desenvolvimento da relação processual foram inobservados.

    Sob esse prisma,considerando-se que o fim precípuo da elaboração do novel CPC é dar maior celeridade no trâmite das demandas judiciais,em que pese entendimento contrário,não vejo a supressão da impossibilidade jurídica do pedido condizente com tal objetivo.Isso por que não sendo mais a impossibilidade jurídica do pedido condição da ação, não mais ocasionará a extinção do processo em sua fase inicial, sendo possível o seu reconhecimento tão somente quando da prolação da sentença.

    Vide, que na atual sistemática processual a demanda que carece de umas das condições da ação é extinta numa análise inicial,o que não mais será possível caso tal condição da ação seja suprimida,o que acarretará,certamente,um exaustivo desenrolar do processo até a prolação de uma sentença reconhecendo tal vício, o que se evitaria caso fosse reconhecido a carência de maneira precoce, tal qual ocorre na sistemática do atual Código de Processo Civil.

    Por tal motivo, vejo como um retrocesso a supressão da impossibilidade jurídica do pedido como uma das condições da ação.


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